Acrobacias aéreas em São Gonçalo: Eduarda Moreira inaugura sede própria da Voares Circus
- 22 de mar.
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Em entrevista, a fundadora conta sobre sua trajetória, a abertura do novo estúdio e o papel da arte circense na formação de jovens da cidade.

São Gonçalo possui, desde o mês passado, um espaço dedicado exclusivamente ao ensino de acrobacias aéreas e artes circenses. O Voares Circus inaugurou sua sede própria no bairro do Lindo Parque, oferecendo seis modalidades aéreas: tecido acrobático, faixa aérea, mastro pendular, pole dance, corda lisa e lira.
O estúdio recebe alunos de todas as faixas etárias, atendendo desde pessoas fisicamente ativas até aqueles que nunca fizeram qualquer atividade física. As aulas são adaptadas individualmente a cada aluno, levando em consideração seu histórico, sua estrutura corporal e seus objetivos, sem pré-requisitos de força, flexibilidade ou experiência anterior. O ponto de partida é onde cada pessoa está.
Com a inauguração da nova sede, São Gonçalo passa a contar com um espaço dedicado à prática de acrobacias aéreas que hoje conta com dezenas de alunos em diferentes estágios, alguns dos quais já competiram e conquistaram pódios em competições estaduais e nacionais.
Mas o Voares não surgiu pronto. Ele nasceu aos poucos, moldado pelas escolhas e pela trajetória de sua fundadora, Eduarda Moreira, a Duda.
Como o Voares Circus trouxe acrobacias aéreas para São Gonçalo

O Voares não nasceu com um plano de negócios, um investidor ou um espaço alugado. Nasceu de uma sequência de decisões tomadas por uma jovem que, no início, nem se achava capaz de dar aula.
Eduarda Moreira, a Duda, começou a praticar acrobacias aéreas em 2019, com o intuito de se desafiar e superar seus medos, até que no ano seguinte, chega a pandemia pelo Covid-19 e fecha todos os espaços de treino. Com o isolamento, surgiu o receio de regredir naquilo que ela havia acabado de aprender, dessa forma ela decidiu montar um centro de treinamento improvisado na garagem do seu avô. Comprou 52kg de anilhas, barra de agachamento, barra de pole dance e instalou junto a um serralheiro um tecido preso ao teto de três metros. Treinou ali, sozinha, todos os dias, alternando modalidades e fazendo aulas online com artistas de circo. Saiu da pandemia mais forte do que entrou.
“Todo dia eu treinava uma coisa diferente. Hoje musculação, amanhã pole, depois tecido. Comprei uma faixa, comecei a fazer aula online com um artista de circo. Fui me virando em casa.”
Em 2021, incentivada por um amigo, começou a dar aula num pequeno espaço em um box de crossfit. Sem grandes expectativas, Duda dava ali seus primeiros passos como instrutora de acrobacias aéreas. A insistência veio de fora, pois ela mesma não acreditava que estava pronta.
“Um amigo meu começou a jogar uns verdes: você nunca pensou em dar aula? Falei: não, pô, não tô pronta pra dar aula. Ninguém nunca me ensinou como dar aula, como é que eu vou começar?”
Entretanto, os seus dois anos de prática e a proposta de ser monitora na escola onde ela praticava, fizeram ela reconsiderar esta ideia. O circo opera por uma lógica diferente de outras profissões. Não exige diploma universitário nem registro no CREF. Como Duda explica, é notório saber. Você ensina o que aprendeu na prática, e a credibilidade se constrói no dia a dia.
Os primeiros alunos surgiram. Depois vieram indicações, uma arena poliesportiva maior, mostras artísticas e, enfim, a percepção de que aquilo tinha potencial para ser algo maior do que parecia ser. Na época, o projeto nem tinha nome — era apenas “aulas de acrobacia aérea dadas pela Duda”.
Dessa compreensão da materialidade do que ela havia feito até então, nasceu o Voares Circus. Duda criou o nome, e por também ser ilustradora, desenhou a logo, desenvolveu a identidade visual e estruturou a metodologia de ensino. Tudo enquanto ainda cursava faculdade de Arquitetura e se perguntava se fazia sentido apostar num caminho tão pouco convencional.
“Eu comecei a ver que, cara, isso tem potencial pra virar uma marca, pra virar uma empresa. Eu sempre fiz tudo: dei o nome, escolhi o nome, fiz a logo, desenhei a logo. E aí a coisa começou ganhando corpo.”

A decisão de abrir a sede própria veio por necessidade. O local onde Duda dava aula começava a dar sinais de falência. Se aquele negócio fechasse, o Voares ficava sem teto e possivelmente, Duda, daria adeus ao seu sonho. Para além disso, ela também estava concluindo a faculdade de Arquitetura e se perguntava o que faria do seu futuro, já que sempre havia conciliado o circo e a graduação ao mesmo tempo. Nesse contexto, restavam apenas duas decisões possíveis. Investir agora ou desistir.
“Eu decidi, dar uma chance! Eu acho que a gente não pode passar a vida inteira sem dar a chance para o nosso sonho. Pode não dar certo? Pode! Mas a gente tem que tentar!”
Com o apoio de sua família, Duda alugou um novo espaço, projetou a reforma do local, que de forma simbólica foi o seu primeiro trabalho como arquiteta recém-formada, e em quatro meses de obra, transformou o local no estúdio que funciona hoje. Semanas depois, o antigo espaço fechou as portas.
Eduarda Moreira, a Duda

Toda história tem um ponto de partida que, na época, não se apresenta como um marco temporal. O de Duda foi um comentário do seu pai.
Seu pai, triatleta, costumava treinar na Praia da Boa Viagem, em Niterói. Num desses treinos, avistou um grupo de jovens penduradas em tecidos presos a uma estrutura, executando movimentos acrobáticos. Voltou para casa e disse: “Duda, eu vi umas meninas fazendo uns negócios penduradas num pano. Achei muito bonito. Você não quer ir lá ver?”
Duda foi. Viu uma aula acontecendo, ficou curiosa e marcou sua aula experimental. Gostou de imediato. Antes do circo, ela já era apaixonada por atividade física pois praticava calistenia há três anos e tinha experiência em crossfit, onde chegou a competir. Mas acrobacias aéreas? Nunca tinha ouvido falar.
“Eu nunca nem tinha ouvido falar do que era acrobacias aéreas de circo. Eu não sabia nem que alguém ensinava isso fora do circo, fora das lonas.”
O histórico com calistenia e crossfit lhe dava força de sobra. Entretanto, havia um problema que ela não tinha previsto. Medo de altura. Não um desconforto leve, mas um medo intenso, que travava o corpo, embrulhava o estômago e fazia cada aula parecer uma prova de resistência psicológica.
"Eu chegava a passar mal de medo. Cheguei a pensar que não era pra mim.”
O tecido acrobático exige subir metros, se enrolar no pano, confiar nos nós e, em muitos movimentos, se jogar em quedas controladas. No início, a ansiedade acompanhava Duda até antes das aulas.
“Mas isso de certa forma também me desafiava. Quando eu conseguia, eu me sentia muito bem.”
Duda pensou em desistir diversas vezes. Mas a cada figura que conseguia executar lá no alto, a sensação de superação era tão intensa que a fazia voltar na aula seguinte. O medo virou combustível. E foi esse combustível que a levou a treinar na garagem durante a pandemia, a aceitar o convite de dar aula quando não se achava pronta, a criar uma marca do zero e, anos depois, a investir tudo numa sede própria.
Quando a pandemia arrefeceu e os espaços reabriram, Duda estava nos pontos mais altos de sua evolução como atleta e artista. A disciplina solitária na garagem de três metros havia acelerado anos de evolução.
“Foi exatamente o tempo que eu mais evoluí, que eu mais peguei confiança, porque eu tava treinando todo dia pra não ficar maluca.”
Depois da pandemia, Duda mudou de escola e encontrou uma professora que acreditou no seu potencial, passando movimentos cada vez mais desafiadores. A confiança cresceu. O hiperfoco também.
A transição de aluna para professora veio de forma natural, embora ela não a enxergasse assim na época. Primeiro, foi convidada a ser monitora na escola onde treinava, sendo assim uma espécie de assistente que ajuda os alunos iniciantes. Depois, veio a insistência do amigo e o início das aulas no crossfit. E ao começar a ensinar, Duda descobriu algo sobre si mesma.
“Eu me encontro mais como professora do que como atleta e artista em si. Gosto dos dois. Mas eu amo muito ser professora. Poder ver os alunos melhorando, evoluindo.”
Para ela, a maior realização não está nos próprios troféus. Está nos momentos em que um aluno conquista aquele movimento que parecia impossível. Um esquadro que demorou um ano. Uma primeira barra fixa. Uma queda executada sem hesitação.
“Tem gente que o sonho era fazer um esquadro. Demorou um ano pra pessoa conseguir. Mas aí você vai falar: você lembra que o seu sonho era fazer um esquadro? Hoje você fez o seu primeiro. A pessoa fala: caraca, é verdade. Isso é uma realização muito grande porque não é só a realização do aluno como também do professor. É um trabalho conjunto.”
Apesar da satisfação que seu trabalho proporciona, em 2023, Duda precisou responder a uma pergunta que a inquietava. Seria ela realmente boa? A única forma de descobrir era se desafiando.
Assim, em 2023 ela decidiu participar do Aerodance Show, em São Paulo, e conquistou o primeiro lugar na categoria overall aéreos, superando apresentações que ela mesma julgava superiores à sua.
“Eu vi apresentações que eu jurava que iam ganhar. E me escolheram. Então eu realmente apresentei uma coisa diferenciada. Isso também aumentou minha autoestima como instrutora, como professora.”

No Valinhos em Dança, também em São Paulo, levou duas de suas alunas para uma coreografia de tecido em trio com uma proposta inédita. A ideia era usar saltos de pole dance de 20 centímetros durante a apresentação, eliminando as travas de pé e sustentando tudo nos braços. A temática era empoderamento feminino. O processo foi intenso, com a execução da coreografia completa sendo realizada apenas na véspera do evento.
Foram três meses de ensaios em feriados e domingos, com Duda dividida entre a culpa de ter montado algo difícil demais e a convicção de que não devia aliviar. Mas Duda manteve a aposta.
No dia, a coreografia saiu inteira. A inovação de misturar modalidades foi elogiada pelos jurados como algo que nunca tinham visto. Primeiro lugar.
“Por mais que a coreografia só tenha dado certo no último ensaio, no dia funcionou. Quando você se coloca um desafio grande, você evolui anos-luz.”
A abertura da sede própria é o capítulo mais recente de uma trajetória que começou há sete anos. Duda achava que precisaria esperar até os 40 para realizar esse sonho. Mas quando o local onde dava aula começou a falir, a vida apresentou a oportunidade e a urgência ao mesmo tempo.
Ela lembrou de um espaço que havia visto meses antes e descartado por falta de recursos. Procurou novamente, e viu que ainda estava disponível. Conversou com a família. E a resposta que recebeu diz muito sobre a base que sustenta essa história.
O TCC de Duda na faculdade de Arquitetura foi o projeto de uma escola de circo para São Gonçalo. O primeiro trabalho como arquiteta formada foi projetar a própria sede do Voares. Seis anos de faculdade que, de repente, fizeram sentido de um jeito que ela não tinha planejado.
“Eu acabei de me formar em arquitetura e meu primeiro projeto foi projetar o local que eu trabalho hoje. Foi projetar a minha escola. E o meu TCC foi sobre escola de circo. Eu comecei a colocar à prova tudo que eu aprendi nos últimos seis anos.”
Em dezembro, semanas após a conclusão da obra, veio a confirmação. O local antigo fechou as portas. Se Duda não tivesse agido quando agiu, estaria sem espaço e sem trabalho.
Entrevista completa com Eduarda Moreira
Assista à conversa na íntegra com Duda, onde ela detalha sua trajetória desde o primeiro contato com as acrobacias aéreas, os desafios de superar o medo de altura, as conquistas em competições nacionais, o processo de abertura da nova sede e seus planos para o futuro do Voares Circus e das artes circenses em São Gonçalo.
Entrevista: Yuri Messias Cardoso | Duração: 49 minutos
A arte que transforma

Dentro do Voares, há algo que não aparece em fotos de Instagram nem em vídeos de competição, mas que talvez seja o que há de mais importante naquele espaço.
Duda percebeu, ao longo dos anos, que boa parte dos seus alunos não procuram o circo apenas por curiosidade ou estética. Muitos chegam carregando depressão, ansiedade, estresse profissional, dias que parecem não ter pra onde ir. E encontram naquela uma hora de aula algo que não esperavam.
“O tanto de alunas que eu tenho que já me deu vários feedbacks falando: Duda, eu tenho depressão, as aulas me ajudam muito. Ou: cara, eu tô tendo uma crise de ansiedade, eu preciso fazer uma aula só pra esquecer um pouco dos problemas que eu tô passando na minha vida.”
Por isso, o acolhimento é pilar no Voares. Duda observa o semblante de cada aluno ao chegar, pergunta se está tudo bem, entende que um rendimento ruim pode não ter nada a ver com força.
“As pessoas não procuram uma atividade lúdica apenas porque é bonito. Às vezes, aquela uma horinha do seu dia que você vai fazer uma atividade que você ri um pouco, conversa com outras pessoas, faz um esforço físico — já muda todo o rumo do seu dia, todo o seu sentimento.”
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São Gonçalo, o segundo município mais populoso do estado do Rio de Janeiro, é uma cidade onde, para muitos jovens, os caminhos parecem ser poucos e já definidos. A ausência de perspectiva faz com que casos de sucesso como os de Vinicius Júnior, Claudinho e Buchecha, Thati Lopes, Azzy, Os Garotin e Orochi sejam vistos como exceção.
A realidade para a maioria dos jovens do município é bem diferente, marcada pela submissão ao subemprego ou, em casos mais graves, pelo recrutamento do crime organizado que ocupa diversas áreas da cidade. A arte, quando aparece, costuma ser vista como desvio, não como estrada. O que a história de Eduarda Moreira demonstra é que às vezes o desvio é exatamente o caminho.
Uma jovem que tinha medo de altura e não se achava capaz de ensinar, hoje administra um estúdio próprio, forma artistas, leva alunos a competições nacionais e oferece a dezenas de pessoas algo que muitos nunca imaginaram ter acesso. Não porque o caminho foi fácil, mas porque, em cada etapa, houve a decisão de não parar.
A arte circense não precisa viver confinada às lonas de circos itinerantes. Ela pode criar raízes, formar profissionais e, acima de tudo, dar a jovens uma possibilidade que talvez nunca tenham imaginado. Cada aluno que sobe num tecido pela primeira vez e descobre que seu corpo é capaz de mais do que imaginava está vivendo, sem saber, o mesmo que Duda viveu naquela tarde na Praia da Boa Viagem. A descoberta de que existe um caminho que ninguém havia lhe contado que existia.
Num país onde a cultura é frequentemente tratada como supérfluo, cada espaço que nasce dedicado a ensinar arte é um ato de resistência. O Voares Circus é a prova de que a arte liberta, de que a persistência constrói e de que, às vezes, tudo que uma vida precisa para mudar de rumo é um pedaço de pano e alguém disposto a ensinar como se pendurar nele.
Como conhecer o Voares Circus

O Voares Circus está localizado no bairro do Lindo Parque, em São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro. O estúdio oferece as seguintes modalidades:
Tecido acrobático — tecido de poliamida preso ao teto, dividido em duas faixas. Suporta até 200 quilos. Permite figuras, combos e movimentos de queda controlada. Principal recomendação para iniciantes.
Faixa aérea — duas faixas de tecido rígido, semelhantes às argolas da ginástica olímpica. Exige força e condicionamento elevados. Indicada para quem já tem base.
Mastro pendular — tubo emborrachado preso apenas na parte superior, que balança livremente. Pegada firme e dinâmica.
Pole dance — tubo de inox fixo. Superfície mais escorregadia, nível de dificuldade um pouco acima do mastro.
Corda lisa — corda de algodão trançado. Funciona como versão em faixa única do tecido.
Lira — aparelho circular suspenso, ministrado por uma segunda professora. Indicado para iniciantes.
Como entrar em contato:
O primeiro passo é chamar pelo Instagram (@voarescircus) ou pesquisar “atividades de circo em São Gonçalo” no Google. O perfil contém link direto para WhatsApp e para o site com os planos de aula disponíveis.
Como funcionam as aulas:
Duda faz pessoalmente o atendimento, conduz a aula experimental e recomenda o aparelho mais adequado para o perfil de cada pessoa. Não é necessário ter experiência prévia, força específica ou flexibilidade.
E se você tiver medo de altura, pode ficar tranquilo. A professora que vai te receber sabe exatamente o que você está sentindo. E é a maior prova de que dá pra superar.


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